Eu nunca vi o Kremlin. Apenas representações dele, fotografias, desenhos, descrições. Pessoas que dizem que já lá estiveram e me juram a pés juntos que ele existe e que é assim e assado. No entanto, ele nunca se manifestou no meu mundo “real”. Tal como os Unicórnios nunca se manifestaram. Por isso, no plano do que seja a minha consciência e o meu mundo, o Kremlin e os Unicórnios apresentam as mesmas propriedades: são quase que lendas. São coisas que me dizem que existem (ou não), que eu não posso comprovar (que sim ou que não, pelo menos no imediato) e que estão vivas num plano tangencial ao da minha realidade universal. No mundo dos meus sonhos, ambas têm o mesmo valor intrínseco, a mesma palpabilidade, a mesma capacidade de mexerem com as reacções dos meus sentidos, presumindo que os sentidos são activados nos meus sonhos (e dentro de certos limites são-no). No mundo “real”, ambos não têm existência. A existência deles resume-se ao que eu infiro ser uma existência estatística no universo “real” das outras pessoas. E é por esse motivo, e só por esse, que eu posso dizer que acredito um bocadinho mais no Kremlin que nos Unicórnios: porque num plano meramente estatístico, há mais pessoas a garantirem-me que o Kremlin existe no universo “real” delas, que Unicórnios.
Será que isso será prova ou critério suficiente para se aguentar? Será que é isso o chamado “bom senso”, uma quantidade credível de informação, que muita gente acredita e testemunha? O que afinal me garante que algo exista e não seja fantasia? Será que uma espécie de peixe das profundezas do Pacífico que ninguém nunca tenha visto ainda, mas que vamos supor que existe (e, devido única e exclusivamente à experiência passada, acredito que existam algumas), é menos real que um Unicórnio? Na realidade, esse peixe das profundezas do Pacífico, existe no mundo “real”, mas nunca ninguém o viu, porque ainda não foi descoberto, logo a sua existência no plano representativo é nula. Já o Unicórnio tem, ao menos, essa existência representativa. O que significam estes paralelismos todos então? Que poderá haver coisas que existam que “sejam menos” que coisas que afinal não existam? E então, sendo assim, o que é existir? O que é acreditar em algo? O que é acreditar que algo existe? Como é que algo existe se ninguém acreditar que existe? E como é que algo em que acreditamos afinal não existe?
Estou baralhado. A minha experiência passada garante-me que o Kremlin existe, que os peixes das profundezas do Pacífico que ainda não foram descobertos existem e que os Unicórnios não existem. No entanto, a minha credulidade ontológica subverte-me esta hierarquia e coloca-me os Unicórnios no mesmo plano de existência do Kremlin e extingue os peixes que ainda não foram descobertos...










--
Have heart, my dear
We're bound to be afraid
Even if its just for a few days
=sunsets & *Blacks-and-Whites ~DAhugbuddies & ~swedishART & *youthphotographers
--
They came out from us that it might be made manifest that they were not for us. For had they been of us, no doubt they would have continued with us. [1 John 2:19]
--
Whoever said you can't buy happiness, forgot about puppies.
--
I really should find an nice, inspirational quote to put here. But I'm not.
--
e.e. cummings:
--
member of: *RoWatch ~DeseneRo ~oradea =UnderRatedWatch
--
Do Barreiro...por Barreirenses...para o Mundo...
*Culto-Barreirense ...a Arte sem regras...
MANDA A TUA I.D. A CONCURSO!
Previous Page12Next Page